Joaquim Floriano de Godoy, Taubaté e a Província do Rio Sapucaí

Companheiras e Companheiros 

 

Quanto ao tema a ser apresentado agora no blog, julgamos interessante abordar um pouco da vida de um paulistano de nome Joaquim Floriano que se encantou por Taubaté. Encanto e respeito conscientes, porque se não tivesse ocorrido isso não teria ele, no meio da confusão das acirradas lutas políticas que travaram abolucionistas e republicanos, nos últimos anos do Império, lançado em nosso parlamento um projeto diferente, nada de republicano e nada de abolucionista, que pasmou a imprensa e a classe política da Corte, de São Paulo e de Minas, provocando um bate boca entre nosso herói, bem duro na queda aliás, e todos os outros que lhe imputaram ser irefletivo e lunático. 

Não basta falar aqui só do  Floriano, um dos protagonistas da história real e portanto “história” mesmo com  “H”, que vamos relatar. É preciso destacar outro protagonista, certamente o mais importante, a nossa própria Taubaté 

A cidade de Jacques Félix já era conhecida e respeitada desde sua irradiação bandeirista em busca do ouro e da semeadura, por taubateanos, de novas vilas e cidades. Ingressara, ao longo do período regencial, no ciclo do café e sua gente trabalhadora se esmerou no cultivo da rubiácia, elevando a produção exportada pelo Município, que em 1836 foi de 23.000 arrobas, para 355.000 arrobas em 1855, e essa produção cafeeira continuou crescendo. Grandes fazendas ocuparam o solo taubateano e seus proprietários cuidavam desde a metade do segundo reinado, de substituir gradativamente o braço escravo pelo de colonos remunerados, quer fossem brancos, negros, brasileiros ou europeus. Assim, à época da abolição em Taubaté (4 de março de 1888), o número de escravos já se tornara muito reduzido.

A produção cafeeira de Taubaté se manteve em alta mesmo ao longo da primeira década da República. Por volta de 1899 o município ainda exportava, anualmente, a média de 400.000 arrobas, com cerca de vinte milhões de pés de café em produção em suas fazendas.

Afonso de Taunay, em sua “História do Café”, escreveu:

“Taubaté tivera sempre a primazia do norte paulista, desde as mais longínquas eras coloniais e tal circunstância haviam-na frisado os depoimentos dos viajantes”.

Coletando dados de estimativas oficiais da Província de São Paulo e estudos idôneos feitos por volta de 1870, inclusive os de Azevedo Marques e do próprio Joaquim Floriano, nosso herói, que alem de escritor era estatístico, concluímos que a população do Município nesse ano de 1870 atingia a 49.000 habitantes, o que lhe assegurava a condição de ser o mais populoso da Província de São Paulo, afora a capital que com todas as suas freguesias, atingia 54.000 pessoas, cerca de 11% apenas a mais do que Taubaté. Para efeito de comparação: Campinas, hoje a filha rica  da cidade de Jacques Félix, não tinha, ao tempo, mais do que 34.000 habitantes.

Acresce um outro detalhe de importância: em 1870, a população livre do Município já ultrapassava a 80% da população total, ou seja, o número de escravos, em Taubaté já era, ao tempo, inferior a 20%, embora o número de negros e pardos ascendesse a mais de 59%, enquanto havia menos de 34% de brancos e apenas 7% de caboclos 

Joaquim Floriano conhecia bem esses dados sobre Taubaté, o Vale do Paraíba e sua gente, até mesmo porque ele estudava estatisticamente a região e não era nenhum bobo. Mas afinal, quem era ele e o que fez? Vamos relatar adiante,  em resumo.

Chamava-se Joaquim Floriano de Godoy, filho do Sargento-mor seu homônimo e de D. Inácia Xavier Pinheiro. Nasceu em 1826 em São Paulo, capital e formou-se em medicina, em 1852 pela Faculdade do Rio de Janeiro.

A princípio mudou-se para Jacareí, onde exerceu sua profissão de médico, mas logo enveredou pelos caminhos de político e escritor

Em Jacareí, Joaquim Floriano, moço culto e inteligente seguiu a rigor a cartilha política da época. Ingressou no Partido Conservador, embora trouxesse consigo muitas ideias liberais e progressistas, o que se pode observar em sua obra “ O elemento servil e as câmaras municipais”, publicado no Rio, em janeiro de 1887. Não foi esse porém seu único trabalho de valor, pois em 1875 já editara o livro “ A Província de São Paulo – Trabalho Estatístico, Histórico e Noticioso” republicado mais de um século depois pelo governador do Estado, em 1978, como o volume XII da coleção Paulística.

Foi eleito diversas vezes deputado provincial e, de 1867 a 1872, deputado geral ao parlamento do Império. Prestou relevantes serviços ao País durante a Guerra do Paraguai, fornecendo inclusive ajuda financeira para equipar voluntários que seguiriam para a campanha.

Em 1872 foi nomeado presidente da Província de Minas Gerais e, nesse mesmo ano, com o falecimento do senador José Manoel Fonseca, teve seu nome incluído por eleição na lista Tríplice encaminhada a D. Pedro II e foi escolhido Senador por São Paulo, cargo que exerceu até o fim do Império. Faleceu já na República, em 20 de novembro de 1902, na Capital paulista onde nascera.

Teodoro Sampaio, ilustre membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, disse dele em necrológico: “ o senador Godoy foi, em política, um moderado, um conservador de boa têmpera, acessível às ideias generosas e progressistas”.

Esse digressão que fizemos sobre Joaquim Floriano de Godoy, médico, político e escritor, foi para mostrar que ele não era nenhum néscio ou desatinado , mas um grande brasileiro, estudioso dos problemas do País.

Pois bem, esse homem sério, inteligente e patriota, para o pasmo dos políticos da época, notadamente fluminenses, paulistas e mineiros, apresentou no Senado, em 5 de outubro de 1887, um projeto de lei criando a “Província do Rio Sapucaí”, desmembrando território aquém e além da Mantiqueira, do Sul de Minas e do então chamado impropriamente de Norte de São Paulo (Cone Leste Paulista, inclusive o litoral), com a capital em Taubaté. 

Tal projeto desencadeou sobre o senador Godoy violentos ataques, notadamente da imprensa e do governo paulistas, mormente na Capital, e o autor, para justificar seu projeto e se defender da violência das críticas, publicou em 1888, no Rio de Janeiro mais um livro, intitulado “Projeto de Lei para a criação da Província do Rio Sapucaí”. Justificava ele:

“Projetos dessa magnitude e de ordem deste não são abraçados imediatamente; não só porque trazer uma alteração no número atual e na divisão das províncias, parece um atentado contra direitos adquiridos, senão porque, afora os representantes da nação , bem poucos brasileiros terão conhecimento das razões de ordem geral e de bem público que levou-me a apresentá-lo.”

“ Como, pois, ele tem que ser discutido na Assembléia Geral, é justo e mesmo de alta conveniência para o seu êxito, que ele o seja, também em todo o País”.

E o senador revidou drasticamente, às acusações da imprensa paulista na parte de seu livro intitulada “ Ao Jornalimo da Província de São Paulo adversário à Província do Rio Sapucaí”, e disse:

“Ocupo-me em responder a vários jornais de São Paulo que em 1887 levaram o seu formidando ataque contra a minha pessoa, por causa desse mesmo projeto, às derradeiras raias do encarniçamento insultante, brutal e feroz”. E em seguida por várias dezenas de páginas desancou a imprensa paulista .

O senador era um homem bem intencionado e guerreiro, lutando por seus ideais. Bateram mas também apanharam. Dá cá, toma lá…

A opinião pública estava entretanto absorvida, ao tempo, em dois temas: Abolição e República. O projeto do Senador não prosperou e o próprio Império pouco depois chegava ao fim; mas uma coisa foi marcante: 

O Senador Godoy entendia bem a importância de Taubaté, por sua tradição histórica, sua produtividade cafeeira, pela pujança de sua gente e pela magnífica posição geográfica que ocupa.

Ele compreendeu o que muitos pseudo-administradores e politicóides, que vicejaram e ainda vicejam infelizmente no Município, não conseguiram entender nessas doze décadas que separam seu projeto dos primórdios do século XXI.

Godoy percebeu, sem dúvida, o potencial de prosperidade que teria uma Província cafeeira criada a partir de municípios produtores de Minas e São Paulo, com seu próprio porto – Ubatuba – ligado ao Sul de Minas por uma ferrovia exportadora, passando por Taubaté, cruzando os trilhos e se conectando a estrada de ferro Central do Brasil.

Todos os impostos provinciais gerados naquela região de cultivo da rubiácia, usufruídos polos próprios municípios geradores de riqueza! Que nicho extraordinário de progresso haveria ali, na nova Província, cuja implantação ele vislumbrara.

Com o fim do Império, dois anos depois, Joaquim Floriano de Godoy perdeu sua tribuna privilegiada – o Senado. Seu projeto quedou esquecido até na própria Taubaté, porque o tempo apaga quase tudo. Mas ele não foi um sonho vago, uma quimera; ao contrário, foi uma idéia bem urdida e estruturada que tinha uma razão de ser: geração de mais riqueza e progresso numa província nova, de capital Taubaté, a cidade que o encantara.

Anúncios

One Response to Joaquim Floriano de Godoy, Taubaté e a Província do Rio Sapucaí

  1. Vitor disse:

    Cara, muito interessante essa história. Vc poderia me indicar, por favor, algum livro ou site onde eu possa obter mais detalhes sobre ela?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: